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Quem era?


Outro dia o telefone tocou, já era tarde, na telinha da TV eu mal conseguia enxergar o belo rosto da apresentadora do jornal da globo. É verdade! Já era para eu estar na cama, com direito a travesseiro e tudo mais, mas as piadas sem graça da turma do Casseta & Planeta me fizeram cochilar ali mesmo, naquele sofá duro e desconfortável. Era um amigo, um antigo amigo, daqueles que a gente esquece até o nome, e que eu já não via há anos, a voz grossa e o som de um sorriso contido na garganta pela felicidade de ter me encontrado em casa, entregava-me quem era, aliás, eu sabia quem era, mas o problema era o nome, ainda era uma incógnita. A cada palavra, a cada entonação eu desenhava na imaginação o rosto perfeito do amigo que estava do outro lado da linha. Mas o nome, bom! 

O nome não vinha. Ao longo da conversa eu recordava as nossas baladas, lembrava da sua família, do dia em que em que roubamos frutas juntos, do tempo em que nosso time ganhava quase todas as competições, enfim, veio tudo na memória sonolenta, até o barulho do trem que fazia parte da trilha sonora da nossa infância. Mas o nome, bom! O nome não vinha. A conversa ganhava altos e baixos tons, a gente viajava junto numa infância perdida, pobre, porém feliz. Relembrava as amigas do colégio, as quedas de brincadeira nos postos que resultavam em saladas de frutas ou até mesmo em apertos de mãos. Falávamos dos amigos daquela época que hoje carregam a difícil tarefa de ser pai e mãe, das dificuldades que enfrentaram, daqueles que partiram sem despedir, dos chatos, perversos, meigos, tristes, alegres, sorridentes, problemáticos, enfim, eram tantos amigos, tantos assuntos, tantas histórias e muita indignação da minha parte por não lembrar apenas o nome do sujeito.

Ana Paula Padrão! Não! Esse não era o nome dele ou de algum parente, mas sim o nome da mocinha da tv que já se despedia, o que comprovava que a conversa havia rendido. Foi triste, mas tive que engolir calado e ainda com sono, toda aquela viagem aos tempos passados, tempo em que o pó de cimento talvez fosse mais intenso na nossa cidade que ainda dependia e infelizmente ainda depende daquela indústria. Eu já tinha me denunciado a ignorância, e quando imaginei entregar os pontos e cometer o pecado de perguntar: Como você se chama mesmo? Ele do outro lado da linha soltou um cacoete que não me levava a pensar em outra pessoa a não ser nele mesmo. O nome subiu pela garganta, atravessou boca adentro e veio na ponta da língua. Mas que pena, não ficou, não saiu, não soletrei, não consegui lembrar o nome dele, nem mesmo com a sua assinatura, ou seja, com o seu cacoete reconhecível e imitável. O gordo entrou no ar, fez todo o seu ritual, apresentou os convidados e neste momento, minha ligação chegou ao fim, o amigo oculto se despediu, mandou abraços para o resto da república, me convidou para passear em sua cidade, riu mais uma vez do tombo que levei quando cai do pé de jabuticaba nos tempos de criança e despediu, desligou e me deixou de boca aberta, de consciência pesada e com muita saudade de uma infância que eu jamais vou esquecer. Pelo menos é o que eu espero.


Texto de 2006. Arquivo Pessoal.



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